3. COLUNISTAS 18.7.12

1. RICARDO BOECHAT
2. LEONARDO ATTUCH - CASSAMOS A HIPOCRISIA?
3. PAULO LIMA - A ILHA
4. PATRCIA MELO - FREUD NO EXPLICA

1. RICARDO BOECHAT
Jornalista - Colunista semanal

STF
 Na cabea
 Comear por Jos Dirceu o julgamento do mensalo, no Supremo Tribunal Federal, dia 2 de agosto. Ele encabea a lista dos 38 rus denunciados. Mas o STF pode at l optar por apreciar o processo pelos crimes praticados. Neste caso, arrolam-se os citados para cada delito  peculato, corrupo ativa, lavagem de dinheiro e outras fraudes. O relator Joaquim Barbosa disse aos colegas que seu voto tem cerca de mil folhas; volume que pode ser parecido ao do ministro revisor, Ricardo Lewandowski.

STJ
 Mentiu, danou
 Antes de entrar em recesso, o Superior Tribunal de Justia decidiu que cabe reparo por dano moral a quem foi vtima de falso anncio na internet. A sentena condenatria de R$ 30 mil foi aplicada na TV Juiz de Fora, que hospeda o portal Click  onde se veiculou uma mentirosa oferta de servios homossexuais. A deciso firma jurisprudncia sobre a responsabilidade coletiva de quem espalha notcias inverdicas na rede mundial de computadores.
 
Servio pblico
 Deu tchau!
 Pediu demisso do Ministrio da Justia esta semana Luiz Otvio Tavares Pereira. Embora negue, ele saiu chateado aps seu nome aparecer como diretor de programa e corno responsvel da Secretaria Executiva da Pasta, em portaria assinada pelo ministro Jos Eduardo Cardozo. O ato de exonerao saiu direitinho.
 
Defesa animal
 Bicho doido
 Corre o risco de parar numa lixeira o projeto de lei aprovado na Cmara dos Deputados, no ms passado, que criou o medicamento genrico veterinrio. Num cochilo da Casa, o texto votado no plenrio no foi o avalizado pelo Senado. O conceito de produto veterinrio ficou to amplo que vai do remdio para carrapato ao arreio de cavalo.
 
Sade
 Em campo
 No papel de jogador, Romrio ser o personagem central de uma cartilha que pretende abrir vagas de emprego em estabelecimentos de sade, para pessoas com necessidades especiais. Superar o preconceito  ganhar o respeito pelas diferenas, diz sem marra o baixinho. A campanha do Conselho Federal de Medicina, com apoio da Federao Brasileira de Hospitais, ganhar as ruas no Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficincia (21 de setembro).

Economia
 Tempos de viglia
 O Banco Central acompanha com ateno a sade dos bancos de mdio porte. Em especial, aqueles que lidam com grandes volumes de emprstimo consignado. Ainda no surtiram os efeitos desejados a linha extraordinria de crdito, recentemente criada para as instituies financeiras  com juros da ordem de 7% ao ano (abaixo da Selic) , e a portabilidade.
 
Ministrio Pblico
 Sem perdo
 O Ministrio Pblico deu parecer, a favor da pena aplicada pela 7 Vara Cvel de Braslia no empresrio Luiz Estevo. Ele est com os direitos polticos suspensos e obrigado a pagar 50 vezes o salrio de deputado distrital, pois em 1997, valendo-se do cargo poltico, pegou dados no Sistema Integrado de Administrao Financeira e foi cobrar R$ 1 milho do Jockey Club da capital, numa ao na Justia. A consulta ao Siafem  sigilosa.

Massacre de Realengo
 Finalmente
 Quase um ano e meio aps a tragdia na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, os 12 alunos feridos pelo atirador Wellington Menezes recebero indenizao da Prefeitura do Rio de Janeiro. O valor sai no fim deste ms e ficar intocado no Banco do Brasil at os menores completarem 18 anos. Para os pais mexerem na verba, s com ordem judicial. Cada estudante ter ainda uma ajuda mensal at a maioridade. O acerto envolve a prefeitura, a Defensoria Pblica e o MP.

Televiso
 Time grande
 Glria Perez gosta de ver muita gente no estdio. Salve Jorge, prxima novela das nove da TV Globo, tem mais de 90 personagens no elenco. A quantidade deixou apreensivos muitos atores, que temem aparecer pouco na trama, com estreia marcada para outubro.

Justia
 Pronta resposta
 O Esprito Santo quer mudar a imagem de Estado violento. O Tribunal de Justia local promove transparncia na internet. Alm de informaes processuais de praxe, o novo site da corte tem um torturmetro, que acolhe denncias e informa as providncias tomadas. Tambm destacam-se consultas a jato s aes de improbidade administrativa. Os capixabas gostaram. Desde que estreou em janeiro, os acessos ao www.tjes.jus.br dobraram, hoje em 45 mil.
 
Mercosul
 Adeso inesperada
 Em Washington, na segunda-feira 9, o ex-presidente Fernando Henrique visitou o secretrio-geral da Organizao dos Estados Americanos, Jos Insulza. Na ocasio disse ter se surpreendido ao ver o presidente Jos Mujica fechar posio com o Brasil na suspenso do Paraguai pelo Mercosul. Uruguai e Paraguai, os menores pases do Mercosul, tm a lei como maior argumento na defesa de seus interesses.
 
Balana comercial
 Troca-troca
 Uma misso oficial russa chegar ao Brasil na segunda-feira 23. Vem inspecionar frigorficos visando a futuras importaes de carne. Antes de colocarem os ps por aqui, um aviso de Moscou: o Ministrio dos Negcios Estrangeiros quer exportar 1,5 milho de toneladas/ano de trigo para nosso pas, bem como vender equipamentos para operaes porturias com gros em portos brasileiros. Como se v, no h amizade no comrcio internacional.
 
Eleies 2012
 Tempos bicudos
 Com o escndalo Cachoeira dominando a poltica, os marqueteiros em Gois choram misria. As campanhas para prefeitos e vereadores tm custos modestos. Porm, candidatos e partidos no conseguem atrair recursos, mesmo com a facilidade para ofertas pela internet.
 
Internacional
 O passado condena
 Causou rebulio no governo a defesa feita pela AGU, no processo aberto pela Comisso Interamericana de Direitos Humanos da OEA, sobre a morte de Wladimir Herzog, dentro do DOI-Codi, em So Paulo, em 1975. Teme-se que a tese de prescrio adotada resulte na condenao do Brasil. Ao julgar em 2010 as mortes na Guerrilha do Araguaia, o tribunal da OEA declarou que a nossa Lei de Anistia no pode proteger quem violou os direitos humanos no regime militar.
 
Literatura
 Papo de letras
 Quem foi ao Sesc Vila Mariana esta semana, em So Paulo, para assistir a uma apresentao da escritora Ana Maria Machado, teve uma surpresa. Na plateia estava Lygia Fagundes Teles, 94 anos, circulando aps longo recolhimento causado por uma fratura no fmur. Animada e vibrante, a romancista transformou uma palestra solo num encantador dilogo.


2. LEONARDO ATTUCH - CASSAMOS A HIPOCRISIA? 

Se Demstenes tiver sido nosso ltimo falso moralista, j ser um avano.

Enfim, acabou. Numa votao histrica, o Senado, pela segunda vez, expurgou um de seus membros, cassando Demstenes Torres, mas no ficou melhor nem pior depois disso. Os esquemas so os mesmos, as presses que o Legislativo impe sobre o Executivo so to fortes quanto antes e velhos coronis regionais continuam dando as cartas na instituio. H quem discuta at se o Brasil no deveria copiar pases que aboliram o Senado e partiram para o unicameralismo, com um s Parlamento. Certamente, seria mais barato, mas talvez no seja o modelo mais justo, do ponto de vista das desigualdades regionais.
 
De todo modo, h um saldo positivo na cassao de Demstenes Torres, que  a desmoralizao da hipocrisia na poltica. Demstenes no se vestiu como Cato da Repblica porque tivesse vocao para desempenhar o papel. Ele apenas ocupou, com notvel maestria, um espao que lhe rendia dividendos miditicos e eleitorais. S que tudo era to falso, to postio e to incompatvel com o comportamento do ex-senador que, mais dia, menos dia, desabaria. Demstenes caiu como sempre caem todos os falsos moralistas.
 
Significa que os discursos da tica pblica e da moral republicana esto tambm desmoralizados? Evidente que no. Mas essa discusso tem que se dar de forma objetiva e sem preconceitos. Quando, afinal, o Brasil promover uma reforma poltica? Em que momento ser feito o debate sobre o financiamento pblico de campanhas? O Brasil deve aprofundar a democracia representativa ou buscar mecanismos de dilogo direto com os eleitores, por meio de plebiscitos?
 
Nos ltimos anos, praticamente todos os escndalos polticos tiveram a mesma raiz: o financiamento de campanhas. Foi assim com o esquema PC Farias, com o mensalo e com vrios outros casos, que levaram  demisso de ministros e autoridades pblicas. O lado B do Demstenes que exigia punio implacvel no era apenas o do poltico que mantinha contatos secretos com Carlos Cachoeira  era tambm o do candidato que recorria aos mesmos esquemas. Afinal, quanto custaram suas duas campanhas ao Senado? Alguns milhes, e a maioria no declarada.
 
Nada indica, porm, que a cassao de Demstenes promova bons frutos. A primeira consequncia poder ser o voto aberto nas futuras cassaes. O que tornar o parlamentar ainda mais suscetvel aos humores da opinio pblica. E quanto mais vulnervel a esse tipo de presso, maior a chance de que surjam novos Demstenes na praa.


3. PAULO LIMA - A ILHA

Paulo Lima  fundador da editora e da revista Trip

Uma garota paulistana armada com sua cmera revela com sensibilidade a alma de uma ilha perdida no meio de Nova York .

Vinte e poucos anos, formada em artes plsticas, modelo nas horas vagas e surfista (na melhor acepo da palavra) desde criancinha, a paulistana Layla Motta resolveu refazer a rota de muita gente boa ao redor do mundo que decide levar a fotografia a srio. Juntou as economias e os cachs, conseguiu uma vaga num pequeno apartamento dividido com outras garotas e se matriculou numa escola de fotografia em Nova York. L confirmou que inspirao  mesmo fundamental, mas que o conhecimento tcnico e terico so to ou mais importantes, se  que esses pontos possam ser dissociados entre si. Num de seus primeiros trabalhos do curso, encarou um desafio complicado: realizar um ensaio documental original num dos cenrios mais fotografados do mundo. Mesmo bem antes dos tempos em que praticamente todos os habitantes do planeta carregam uma cmera no bolso, Nova York j era esquadrinhada em todos os seus buracos e reentrncias por cmeras vidas por algo diferente e instigante.
 
Layla no se intimidou. Pegou um mapa de Nova York e deu de cara com uma ilhota que  praticamente invisvel aos olhos esbugalhados e mopes da grande mdia, apesar de entalada bem na cavidade abdominal da cidade e de volta e meia servir de cenrio para filmes. Subiu num nibus e seguiu para l sozinha com sua cmera e um caderninho. Dessa e de algumas outras viagens a City Island, oficialmente parte do famoso Bronx, surgiram imagens absolutamente instigantes e muito diferentes de tudo aquilo que normalmente se v no repertrio imagtico ligado quela parte do planeta. Fotos que lembram pinturas e que j mereceram lugar nas paredes da conceituada galeria Espasso, no bairro Tribeca, registram pessoas e lugares que parecem completamente alheios ao que acontece a poucos metros dali, no que muitos consideram ser o ncleo do turbilho de informao, competio e dinheiro que ainda seduz boa parte da humanidade. Nas palavras da fotgrafa: Eu escolhi City Island no mapa. Vi, apontei e fui. Peguei o nibus at a ltima parada, no final da ilha.
 
Era uma manh fria e enevoada. No ar uma sensao de abandono. Nada se mexia, nada acontecia. Parecia que nesse lugar to perto da catica Manhattan o tempo havia parado.
 
Depois de espiar em volta por um tempo, vi um homem fazendo sua corrida diria. Curiosa para descobrir algo sobre o lugar, puxei conversa.
 
Seu nome era Roger e ele me contou que tem vivido na ilha nos ltimos 25 anos. Gosta do lugar, conhece todo mundo,  o seu lar.
 Mas para Roger h um problema; no Estado de Nova York ele no est autorizado a portar arma. Ele contou que no se sente seguro de ir a lugar nenhum sem seu revlver. Me disse que achava que tinha que mudar para Connecticut. Perguntei se podia fotograf-lo com seu revlver. Ele me convidou para ir  sua casa.
 
Roger mora em frente ao mar. Ele tocou saxofone profissionalmente sua vida inteira. Assim que entramos ele pegou o saxofone e tocou bossa nova com um sorriso de quem lembra os bons tempos passados. Tinha gatos, caixas vazias e jornais por todo canto da casa. Roger salva gatos doentes e abandonados, cuida deles como se fossem filhos. Eu perdi o interesse pelo revlver. Pareceu que o que realmente inportava para Roger eram seus gatos. Esta era a foto que eu queria.
 
A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip,  publicada quinzenalmente


4. PATRCIA MELO - FREUD NO EXPLICA

"A perspectiva de Israel invadir o Ir faz da crise da Grcia e da possvel derrocada da Eurolndia uma titica de galinha".

Freud afirmava que se o presidente americano Woodrow Wilson tivesse feito anlise a histria do sculo XX seria outra. Segundo ele, Wilson era fraco, no soube conter a fria revanchista dos franceses e britnicos e acabou engolindo goela abaixo o Tratado de Versalhes que humilhou a Alemanha durante as dcadas de 20 e 30 e culminou com a monstruosidade nazista e seus horrores.
 
Wilson havia se incumbido da misso de ser o homem que traria paz ao mundo e foi para a Europa encontrar-se com David Lloyd Georg e Georges Clemenceau levando no bolso uma lista com dez pontos cruciais para que o acordo de paz entre as naes fosse selado de forma justa. Foi recebido como heri quando chegou a Paris em maro de 1919, o que lhe deu enorme capital poltico para sua empreitada. Mas o perfil forte e combativo de seus interlocutores acabou por fragiliz-lo. No soube se opor com firmeza contra a ideia da anexao do Saar e da ocupao da Rennia.
 
Freud afirma que o presidente da Alemanha estava certo ao dizer, quando recebeu a verso final do acordo, que se tratava de um documento escrito com dio. Em A Fuga de Freud, um relato sobre a difcil sada da famlia Freud de Viena, o escritor David Cohen, que tambm  psicanalista, dedica um captulo inteiro ao longo Jacuse que Freud e William Bullitt escreveram a respeito de Wilson.
 
No h como no lembrar dessa histria quando pensamos na atual complexidade do Oriente Mdio. Lembro que na minha primeira visita  regio, em 2007, perguntei a um amigo israelense se o pas no estaria subestimando a humilhao dos rabes na Guerra dos Seis Dias e se essa atitude no teria um paralelo com o que aconteceu com a Alemanha no Tratado de Versalhes. O dio dos rabes fundamentalistas j no mais  problema exclusivamente nosso, ele respondeu. O 11 de setembro deixou essa questo muito clara. (Eu no estava pensando nos fundamentalistas quando fiz minha pergunta, e sim na situao degradante dos palestinos em Israel, mas  verdade que o fundamentalismo islmico agregou ao histrico impasse um complicador de dimenso igualmente gigantesca.) Meu amigo foi bem prosaico, e quis dizer: Sim, estamos subestimando, mas quem no est? Sua resposta, no entanto, no deixa de ser verdade, se pensarmos que a ocupao do West Bank no  muito diferente da invaso do Iraque, ou da manuteno da base de Guantnamo em Cuba, quando o assunto  humilhao. Todas essas polticas fazem do conflito no Oriente Mdio o que o Tratado de Versalhes fez com a Alemanha: globalizam sua dimenso. 

Minha viagem ocorreu um ano antes de Israel invadir Gaza. Na poca era fato que os israelenses, depois do terror da Intifada e dos atentados suicidas, pela primeira vez experimentavam uma rotina em que quase no se pensava mais em bombas e atentados. Por outro lado,  verdade tambm que se pensava mais na possibilidade de o pas acabar como Estado. Mais at do que no perodo anterior  Guerra dos Seis Dias, dizia-me outro amigo israelense. Sem a paz com os palestinos, no existe mais possibilidade de mantermos Israel.
 
A histria nos mostra que Freud estava certo ao ver na humilhao e no dio fermentos poderosos. Mas a psicanlise certamente no ter mais nenhum peso na possvel construo de um tratado de paz entre os povos. Ser necessrio muito mais do que boas cabeas para se resolver um conflito que adquiriu tamanhas propores, ainda mais nesse momento em que a perspectiva de Israel invadir o Ir faz da crise da Grcia e da possvel derrocada da Eurolndia uma titica de galinha, em termos de preocupao mundial.
